terça-feira, maio 27, 2008

–a vida, senhor visconde, é um pisca-pisca. a gente nasce, isto é, começa a piscar. quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. é um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
a vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. um rosário de piscadas. cada pisco é um dia. pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
– e depois que morre? - perguntou visconde.
- depois que morre vira hipótese.
é ou não é?
[monteiro lobato - memórias de emília]

quarta-feira, maio 07, 2008

não lhe peço nada
mas se acaso você perguntar
por você não há o que eu não faça
guardo inteira em mim
a casa que mandei
um dia
pelos ares
e a reconstruo em todos os detalhes
intactos e implacáveis
eis aqui
bicicleta, planta, céu,
estante cama e eu
logo estará
tudo no seu lugar
eis aqui
chocolate, gato, chão,
espelho, luz, calção
no seu lugar
pra ver você chega